A vulnerabilidade energética de Portugal e o impacto do conflito no Médio Oriente

26 Mai 2026

A subida recente dos preços de eletricidade na Europa está diretamente relacionada com a instabilidade no mercado global de gás natural liquefeito (GNL), agravada pelo mais recente conflito no Médio Oriente. De acordo com o relatório Gas Market Report Q2-2026, da Agência Internacional de Energia (AIE), o sistema energético europeu continua estruturalmente dependente de gás natural para assegurar equilíbrio na produção elétrica, sobretudo em períodos de elevada procura e menor disponibilidade renovável. Como consequência, qualquer perturbação na oferta global de gás traduz-se quase imediatamente em volatilidade no preço de eletricidade.

 

O impacto do conflito no Médio Oriente na oferta global de GNL

Segundo a AIE, as perdas de abastecimento associadas ao conflito no Médio Oriente representam cerca de 15% da oferta global esperada de GNL. Este valor corresponde a uma redução extremamente relevante num mercado já caracterizado por margens operacionais reduzidas e elevada sensibilidade a choques geopolíticos. O impacto não se limita apenas à produção física de gás, mas também à instabilidade logística associada às rotas marítimas estratégicas usadas para transporte energético.

O relatório destaca que uma parte significativa do comércio mundial de GNL depende do Estreito de Ormuz, corredor marítimo crítico para exportações provenientes do Qatar e de outros produtores da região. Qualquer interrupção parcial ameaça militar ou aumento do risco geopolítico naquela zona gera pressão imediata nos mercados futuros de gás europeu.

 

Porque é que o gás natural influencia diretamente o preço da eletricidade?

Do ponto de vista técnico, esta subida do gás tem consequências diretas no mercado europeu devido ao modelo utilizado na formação de preços de eletricidade. Mesmo em países com elevada incorporação renovável, como Portugal, o preço final da eletricidade continua frequentemente indexado ao custo da última tecnologia necessária para satisfazer a procura, que, em muitos períodos, continua a ser a produção termoelétrica a gás natural.

Isto significa que, quando o custo do GNL aumenta devido a restrições de oferta global ou instabilidade, o preço marginal de eletricidade sobe em praticamente todo o mercado europeu. O efeito torna-se ainda mais evidente durante períodos de menor produção eólica ou solar, obrigando ao acionamento de centrais de ciclo combinado a gás.

 

A vulnerabilidade energética da Europa

Neste relatório a AIE sublinha que a Europa permanece uma das regiões mais expostas à volatilidade internacional do gás, devido à elevada dependência de GNL após a redução do fornecimento russo, consequência do conflito entre a Rússia e a Ucrânia desde 2022. 

O relatório refere ainda que a crescente concorrência entre Europa e Ásia pelo acesso ao gás natural liquefeito está a intensificar a pressão sobre os preços internacionais, sobretudo em cenários de oferta limitada.

Esta dependência estrutural cria um mercado energético particularmente vulnerável a eventos geopolíticos externos, onde qualquer constrangimento na oferta internacional se traduz rapidamente em aumentos nos custos energéticos europeus.

 

O impacto em Portugal e no preço final da eletricidade

Em Portugal, embora a produção renovável continue a crescer, o sistema elétrico permanece integrado no mercado ibérico e europeu, o que impede um isolamento face às oscilações internacionais. Assim, mesmo em períodos de elevada produção renovável nacional, os consumidores continuam vulneráveis ao aumento dos custos marginais do gás natural importado.

Apesar de ainda não se ter feito sentir o aumento do preço de eletricidade nos primeiros meses de 2026 (o preço médio do OMIE ronda os 43€/MWh, e está em linha com os últimos anos), o preço de referência do gás natural na Península Ibérica – o MIBGAS – sofreu um aumento considerável desde março, altura da escalada do conflito. O preço médio de gás de 42€/MWh é 16% superior ao período homólogo, refletindo o impacto causado pelo conflito nos mercados internacionais de gás natural. Deste modo, é expectável que a eletricidade venha a sofrer um aumento semelhante, à medida que o preço de referência do gás provoque o esperado contágio.

 

O que acontecerá ao mercado energético se a guerra terminar nas próximas semanas?

Se a guerra no Médio Oriente terminar nas próximas semanas, os mercados de energia irão reagir com uma queda nos preços de petróleo, uma vez que grande parte do valor atual do crude reflete o risco associado ao conflito e às restrições no Estreito de Ormuz.

Segundo a CNN, nos últimos dias, o Brent (barril de petróleo usado como referência internacional para definir o preço do petróleo) chegou a cair cerca de 6% apenas com notícias de progresso nas negociações entre os EUA e o Irão. Investidores acreditam que um acordo reduziria esta pressão sobre o transporte marítimo, os segurs de navios e o risco de novas interrupções no fornecimento global de petróleo e gás. Analistas citados pela CNN indicam ainda que o preço do barril poderá estabilizar entre os 80 e 90 dólares se o Estreito de Ormuz voltar a funcionar normalmente e o fluxo de petróleo for totalmente retomado.

No entanto, isto não significa que vai haver um regresso rápido à normalidade. Mesmo com um acordo de paz, o Estreito de Ormuz poderá demorar semanas a reabrir totalmente, já que existem infraestruturas danificadas pelo conflito. Analistas alertam que os fluxos físicos de petróleo continuam limitados e que os preços permaneceriam acima dos níveis anteriores à guerra durante bastante tempo, mantendo a pressão sobre inflação, combustíveis e custos energéticos globais.

Vamos falar sobre

o seu projeto

Política de Privacidade

8 + 12 =